quinta-feira, 28 de agosto de 2008

**Clarice Lispector - Citação**

"E Lóri pensou que talvez essa fosse uma das experiências humanas e animais mais importantes: a de pedir mudamente socorro e mudamente este socorro ser dado. Pois, apesar das palavras trocadas, fora mudamente que ele a havia ajudado. Lóri se sentia como se fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então um homem, Ulisses, tivesse sentido que um tigre ferido não é perigoso. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada."

(Clarice Lispector - Um aprendizado ou O livro dos prazeres)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Cristina

Cristina é o tipo de mulher que não se acredita existir. É daquelas que figurariam um filme baseado em conto infantil; ficção e nada mais. Mas ela existe. Ela me disse: eu existo. Foi o que me disse. Disse aquilo para que eu tivesse certeza, ela é. E é assim: meiga, viva, frágil, melindrosa. Um ser vivo como nunca encontrei na vida antes algum. Tão singular que às vezes acredito ter caído num livro de contos de fada. Sim, pois a realidade é dura e crua demais para aquela alma delicada, que por vezes repousa serena em meus braços. Tento me antecipar e antever as decepções e frustrações que terei com ela, afinal ela é humana e isso é natural e normal. Mas a verdade é que naturalidade e normalidade não são conceitos que perpassem sua existência. Cristina é um anjo, não é menina, nem sequer mulher. Talvez seja tudo isso. Já tentei e não consegui conceituá-la. Tarefa muito árdua. Então me deixo, deixo-na. Não penso no porvir e apenas recebo a dádiva divina de tê-la ao meu lado, sob os meus cuidado.

Lucinha

Os brinquedos espalhados no chão em torno da menina
Pareciam não chamar mais sua atenção
Não queria mais brincar, perderam o brilho
Já não tinham graça não

Olhou para seu trenzinho, sua bola e boneca
Percebeu que tinha muito mais brinquedo a sua volta, ignorou
Não sentia vontade de mexer neles,
Não tinha vontade, seu tempo passou

Não tinha mais fantasia para sonhar, Não queria imaginar família, filhinhos ou lar
Queria olhar pela janela, Mas não tinha altura para alcançar
Queria ver o sol da primavera, Queria ver o horizonte além-mar

Então ela subiu no seu banquinho, as perninhas a tremer
Tinha medo de cair, Mas já não queria descer
Continuou a subir Tentando tudo o que via examinar
Tanto que era tudo, não conseguia, Era muito mundo à sua volta
Precisava de ajuda para olhar

Era tanto a fazer, Muitas tarefas a cumprir
Aquele mundo era sua escola,
Estava em tempo de aprender mais
Pensando nisso se pôs a sorrir

Desceu do banco chutou a bola
Rodopiou feito pião
Riu para a boneca, que sorriu de volta
E ao grande mundo estendeu a mão

sábado, 23 de agosto de 2008

Josie Marie

Eu sabia que ainda o amava
Sabia que havia muito dele em meu coração,
no meu corpo e em minhas lembranças
palavras presas na oração
Ainda havia dor e pesar
Lamento e nostalgia pelo que passou e não pôde se perpetuar
Ainda assim não voltaria atrás
Ainda assim sabia que tudo passaria
Em breve, convictamente, tudo passaria
Passado não volta atrás
A dor no coração passaria
a tensão no falar
assim como a obliqüiedade de meu olhar
Não havia porque outro amar
Ou novamente me entregar
Não havia razão para sonhar
Nem motivos para continuar
Não não sabia mais e não queria pensar
Queria que o tempo comigo fosse cruel
e despedaçasse minhas lembranças em seus átimos contínuos
atirandos-as nas nebulosas de fel
para que nada dele mais permanecesse aqui
Não não não consegui suportar a angústia
então gritei chorei esbravejei
mas nada disso adiantou
Olhei-me no espelho e da face minha nada vi
Tinha ali o rosto dele, o seu sorriso e olhar
Tudo que eu sempre quis
Meu sonho minha aspiração meu amor
ali no espelho imaginado
Ou era verdade? Não sei
Meu amor estava então despedaçado
Atirei o espelho no chão
na esperança de não mais aquilo viver
Foi que eu percebi a besteira que fiz
nos fragmentos do espelho multipliquei
meu amor por ele, meu amor por você
A chuva caía e inundava minha roupa
Não sabia distinguir chuva e lágrimas
Minha alma estava triste e vazia
Solidão dentro de mim.

Por que ele teve que partir?
Meu amor era tão simples, puro...
Será que por isso lhe era inútil?
Dúvida dentro de mim.

Não consigo imaginar um dia da minha vida
Sem ele comigo aqui
Não sei o que será agora de mim.
Perdida, sei, estou sim.

Carrego o peso do amor
Amor rejeitado
Ignorado
Preterido

A chuva continua caindo
Minha alma quem sabe possa lavar
Levando meu amor embora
Reste talvez alguma vida para ainda sonhar

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Carol Adams

Ela era solta na vida
Sim, uma mulher de verdade
Amélia passava longe dela
Ahahahaha
Sabia o que queria e sabia como
Fazer para lá chegar
Não era somente
Mais um rostinho delicado
Num corpo de vulcão
Não
Seus olhos claros vivos
Sagacidade não lhes faltava
Inteligência e certa frieza,
Maquiavelice talvez permeasse
Seu coração
Era mulher com jeito de menina
Mas de menina só o sorriso e o olhar
Tão devastadora como um Tsunami
Tão poderosa quanto um furacão
Sabia viver, sabia brincar
Passava e não deixava vestígios
Não sabia, nem queria amar
Vivia sob pragmatismo
Não tinha paciência
Com ninguém queria para sempre estar
Sabia ser desejada e querida por todos
A despeito do seu jeito, não irritava,
Seduzia aos bobos
Também aos astutos conseguia conquistar
O que será dessa menina? Isso me preocupa
Será que a alguém um dia irá amar?
Será que conseguirá se entregar de coração?
E superando o pragmatismo, saberá se deixar levar
Pelos ventos da paixão?
Senão, o que será dessa menina? Juro, não sei dizer.
Sei que ela é minha amiga, admiro sua vida,
Mas como ela não posso ser.
Ela era gostosa demais
Perigosa demais
Astuta demais para estar ao meu lado

Ela, cínica demais
Arteira demais
Bonita demais para eu bobear

Ela não falava muito
Mistérios
Dava-me segurança alguma
Não dava para com ela jogar

Contudo não havia razão
Para tamanha audácia rejeitar

Leveza no toque e força no olhar
Quadris que me enlouqueciam
Lábios que faziam viajar

Não consegui ficar longe dela
Não cabia a mim decisão
Meu corpo por ela gritava
Perdido fiquei em suas mãos

Ela desprovida de qualquer senso ou juízo são
Abriu-se e meu deu sua vida
Entregou-se em minhas mãos

Dela fiz o que quis
Ela não se pôs a reclamar
Dava-me liberdade e com isso me prendia
Impedindo-me de verdadeiramente amar

A paixão durou muito tempo
Por aquela mulher, louco fiquei
Não queria com ela jogar, sabia: sairei perdendo
Dela virei freguês

Mas o tempo passou e a paixão de mim saiu
Ela, de verdade, não me quis
Comigo jogou; sentimento sem raiz
Hoje cultuo minha solidão e a sensação de sozinho ficar
Porque hoje sou dono de mim, não me levo por paixão
Nem sei se quererei algum dia
Sinceramente alguém amar.