sábado, 15 de novembro de 2008

Luna

Se eu não tiver uma vida própria
Não terei o que doar
Se eu não tiver uma própria vida
Perguntas não poderei responder
Se eu não tiver uma vida minha
Não saberei o outro amar
Se não tiver minha própria vida
Não terei meios de em ti me encontrar

Se eu não me possuir por completo
e minha própria vida eu mesma dirigir
Não saberei quando estarei alguém seguindo,
Sendo eu mesma ou a vida de outrem a perseguir

Se eu não construir meu próprio caminho
Nunca conseguirei um par alcançar
Estarei perdida sem caminho
Sem rumo
Sem estrada
Sem lar

Se eu não for a coisa mais importante no mundo
Nada mais terá valor
Somente a partir de si um sujeito configura o mundo
E o ordena sempre a seu favor

Estou em primeiro lugar
Em tudo da vida, no mundo sem par
Sou eu por mim, não por você
Serei mais que tudo que possa ser

Não posso me esconder na vida alheia
Ou no meu próximo me ocultar
Sou a única responsável pela minha vida
Isso é um prazer, prazer de aqui estar

Sigo segura minha vida
Confiante do caminho que eu escolhi
Sou arquiteta do mundo
Construí o meu futuro, presente que seguí

Sou eu, sou única, sem arrimo fora de mim
Sou tudo que preciso no mundo
Por isso sou alguém para o mundo
Por isso sou Luna para ti
Mesmo sem motivo para escrever
Sem ter o que falar
Não entendo o que eu sinto; eu vou dizer
Aquilo que me faz parar

Quando olho, não quero ver
Mesmo sem saber, não dá para acreditar
É verdade o que sinto por você
Ou será mera ilusão criada para sonhar?

De verdade quero este amor? Prefiro eu que ele venha acabar?
É difícil isso saber. Muito difícil interpretar

Vou continuar a sofrer? Por que a ser feliz não quero me habituar
Luto com o que sinto e ainda luto por você
Luto por algo que não imagino o que será

Minha voz, meu corpo, minha alma querem você
Minha mente, de ti se separar
Como pode esta luta? Quem irá vencer?
Estarei por perto ou irei me afastar?

Mulher que sou, maluca que sei
Amo-te e não quero essa realidade vivenciar
Segura estou longe de ti, não quero a isso ceder
Prefiro a segura solidão à incerteza de amar

Não findo por aqui, há mais o que dizer
Não encontro palavras certas para dissertar
Faço perguntas às quais não posso responder...
Cheguei à conclusão, opto por continuar.

Alice

Alice se casaria em dois dias. Esposa de um político conservador de direita em sua cidadezinha seria. Teria como missão de vida ser exemplo de mulher, mãe e esposa. Seria mais mãe e esposa que mulher, ela já sabia.
Ela estava ali na varanda de casa a lembrar de sua vida e história... Logo ela que odiava os meninos, logo ela que jamais se casaria, logo ela que subia em árvore, usava boné e tomava banho de chuva. Ela achava tudo muito irônico. Ela que adorava a rebeldia, adorava saber o certo somente para fazer o errado. Ela mesma que inocentemente brincava com a capacidade das pessoas ironizando, sendo irreverente, ambígua e controversa.
Por um longo momento divagou. Lembrou-se do período em que estudou fora de sua cidade, quando viveu no alojamento da Escola Secundária. Lembrou-se dos dias que saia sozinha pelas ruas a falar com as pessoas mais esquisitas, contemplando-os pela ótica da normalidade, curiosa pelo outro, pelo diferente, curiosa pela diversidade da vida e dos seres. Também lembrou do primeiro porre de vinho. E da vez em que tomou uma dose de cachaça num botequim com os amigos. Relembrou-se do dia em que dormiu no alojamento dos rapazes para transgredir as normas, nada mais.
Sim, lembrou com alegria e talvez tímida nostalgia. Recordou esse tempo que ficou para trás. Alice não era mais assim. È verdade que era, mas abria mão de muito disso para uma nova etapa da sua vida, não menos digna de louvor. Suas travessuras ficavam para trás, parte dela já estava muito atrás, sendo tangível pelo fio da lembrança apenas. Ela amava o novo desafio, sabia o seu papel ao lado de seu futuro esposo, também conhecia o papel em sua própria vida, e saberia viver a nova canção em uníssono. Certa estava seguindo sua vocação, apoiada pela sua emoção e por sua razão. Entendia que a partir dali estava se tornando verdadeiramente mulher.

Depoimento - Revista Femme Fatale

Eu briguei com ele, pois queria liberdade. Queria independência. Queria fazer minha própria vontade. Briguei, esbravejei, me enfureci. Passaram-se dois anos desde este dia. E não faço nada senão obedecer-lhe. Não faço nada senão agradar-lhe e buscar sua aprovação. Sim, faço isso. Digo mais, faço e gosto. Sinto-me protegida da responsabilidade de pensar. Não preciso me arriscar e não preciso me proteger. Ele decide por mim. Sinto-me aliviada diante desse mundo complicado, que parece uma selva de disputa de poder. Não tenho vontade, mas tenho paz. Isso é o mais importante.
(Depoimento anônimo de uma das assinantes da Revista Femme Fatale - 24/05/98)

domingo, 9 de novembro de 2008

Quando cresci descobri que não era menino
e cresci mais um pouco para virar mulher
Não demorou muito e já controlava a mulher que havia em mim
E mais, com ela aprendi a controlar o mundo a minha volta
Daqui um tempo terei conquistado o planeta e o terei em minhas mãos
Por enquanto jogo video-game com meu sobrinho e arroto depois de beber coca-cola, pois tão logo o sol surja, dominarei o Mundo.

domingo, 2 de novembro de 2008

Cláudio

Cheguei em casa ainda há pouco. Estive toda a noite num jantar de negócios. Estou exausta. Escrevo enquanto Cláudio se banha. Ficou em casa preso o dia inteiro. Deixei-lhe uma porção de água e comida próxima da mesa, até onde a corrente permitiu. Amanhã lhe deixarei solto, anda se comportando bem, poderá ficar livre pela casa.Espero que não faça bagunça e não ataque a emprega. Na verdade acredito que não atacará. Não lhe deixarei uma gota de energia. Brincaremos a noite inteira, estou muito estressada e preciso relaxar. Estou passando o tempo escrevendo, mas já preparei os brinquedos para a diversão. Tenho tudo. Encerro por enquanto, meu marido vem vindo, do jeito que mandei: limpo, Cláudio e nu.

Predileta

Karla Rodrigues Gregório
Ela sorria e saltitava. Em alguns momentos parecia uma cabrita enquanto pulava feliz ao meu lado. Outras vezes era gata arisca, mostrava unhas e tudo. Brigava. Eu gostava quando era gata manhosa, miando e se aninhando em mim. Melhor ainda quando era cachorra no cio me atiçando. Cuidei dela com mel e leite. Adestrei. Já conhecia seu dono e atendia ao chamado de minha voz. Farejava-me e caçava, cadela no cio. Encontrava-me, mostrava unhas e me lanhava, vingança da saudade. Depois manhosa, aninhava-se no meu colo. Na hora de partir, saltitava cabrita de felicidade. Não satisfeito, quis cuidar de mais bichos, de espécies únicas e variadas. Sou criador de galinhas, perito, adoro. Mas cuido de cobras, sague-suga e piranhas também. Posso com todas, todas essas espécies. No entanto perdi a Predileta, minha cabra-gata-cadela. Sem tempo de cuidar dela, minha namorada encontrou um novo dono.