segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O inferno de Cássia

Quando Cássia abriu os olhos não acreditou. Estava lá, estava no céu. Viu tudo como sempre imaginou. E ficou orgulhosa de si, pois estava ali por ter sido uma boa pessoa sua vida inteira.
Havia gente, muita gente, inclusive aquelas que ela conheceu na sua vida na Terra. Contudo entre a multidão havia pessoas que tinham sido más na Terra. Ela não entendeu. Foi perguntar para Deus. Ele a tinha cumprimentado assim que ela acordou.
Cássia perguntou para Deus porque as pessoas más estavam no céu. Deus disse-lhe que não havia pessoa boa ou má no mundo. E que todos eram iguais sob seu julgamento. Por isso todos estavam ali. Também confidenciou que essa história de bem ou mal foi invenção do homem para distinguir-se uns dos outros, hierarquizando valores e retribuindo isso conforme a lógica da invenção.
Aquela senhora ficou pasma. Arregalou os olhos num misto de decepção e incredulidade. Não era possível, ela pensou, tinha feito tudo tão certo, tão bom e adequado em todos os momentos e agora se via ali junto daqueles que não tinham sido “bons” também. Não aceitou. Olhou para Deus com ar de repreensão. Não era possível que Deus fosse assim. Idéia absurda, resmungou em bom som. Retirou-se. Ficou triste. A partir dali sua vida no céu se transformara num inferno.
Numa noite ensolarada borboletas voavam no cemitério. Gatinhos miavam enquanto sua mãe banhava-nos sob o calor dos raios do luar. Crianças abriam sepulcros e brincavam com crânios, formosos, brancos como leite. Adultos, um casal, brigavam romanticamente em gritos surdos. Harmonia bélica imperava.

Yara e Eu

Celebra-se o início com a música em homenagem ao fim
Final do tempo que junto caminhávamos noite adentro
Juntos, dentro do tempo
Um tempo que ficou pra sempre pra trás

Onde nos encontrávamos ainda na noite
Noite de amores perdidos, no chão alcançado
Saltando em beijos, ruídos e gemidos
Celebrando para sempre o prazer de estarmos ao lado

Naquele tempo não havia palavra, não havia regra
Nada que pudesse a paixão estancar
E em beijos selvagens, em posturas suaves, um único corpo, desejo e vontade
Conseguimos naturalmente por fim alcançar

O início do fim celebra-se com aquela canção
A canção do começo que na verdade não era nossa
Mas que o mundo acabe! Disso nunca me esqueço
A nossa paixão, aquela, para sempre gravada estará
Em minha memória
Meus olhos estavam angustiados. Observavam a menor reação. Esperavam alguma palavra. Queriam ver palavras que saíssem dos lábios daquela pessoa. Contudo o silêncio era audível de tão intenso.
Lágrimas rolaram pois palavras não havia. Não tinha uma explicação ou justificativa ao menos. Somente a ausência de palavras. A ausência que nos últimos meses fora minha companheira e amiga, acalentando-me com seu vazio.
Havia algo errado. Algo muito errado, mas não sabia exatamente o quê. Havia alguém, outros alguéns até. Melhor seria que fossem vários, mas era um alguém. Alguém que me tirou tudo. Nada tinha mais importância e sentido. Eu estava ali e somente queria uma resposta ou explicação e não vinha.
Não tive forças para brigar, gritar nem exasperar. As lágrimas secaram com o vento que chicoteava meu rosto. Atrás de mim deixei a minha vida e segui para meu destino ausente de mim. 2/8/8

Por que alguém escreve?

Escreve por que precisa
Ou por querer?
Porque deseja saciar sua necessidade.

Escreve para ser conhecido
Ou para se conhecer?
Porque se conhecendo se dá melhor aos outros a perceber.

Para se revelar
Ou proteger?
Porque se revelando melhor possibilidade tem de se esconder.

Como se dá o ato de escrever?

Mera criação
Ou exemplo de poder?
Poder de criar e fazer outros enxergarem aquilo que não conseguem ver.

Ato de amor
Ou de prazer?
Prazer gerado no amor de criar uma realidade para ser vista,
Conseguindo assim revelação
Protegendo aquilo que quer
Somente para si ter.

A Livraria

Na viela eu a vi
Era minúscula
E gigante

Seduziu-me
Com suas histórias
Sua música pelas estantes

Era tudo ímpar
Um mundo a parte
Sua música, sua voz, seus livros
Dispostos em suprema arte

Entrei, não hesitei
Também queria participar
Onde os livros são os mundos
Não há lei para novos criar

Senti me na solidão
No profundo do meu ser
Ali havia vários comigo
Me lendo e por mim sendo lidos,
Nossa forma particular de viver

No momento em que comecei
a exaurir e pelas nuvens flutuar
A porta começou a se abrir
O relógio lá fora a me chamar

Dizia-me com convicção: é hora de retornar.
Sua vida está fadada pra todo sempre na realidade
se perpetuar.

Mas grande consolo me deu, havia brilho no olhar.
Disse-me com exatidão: tens-me do lado seu,
sempre que quiserdes aqui voltar.
Tens todo tempo do mundo.
Nunca deixarei de fazer-te sonhar.
És uma partícula do céu, através dos mundos para lá voltarás.
Nunca deixe de escrever e com outros compartilhar.
O mundo mágico que é teu, todos tem um lugar.
Lá não há choro, sofrimento, nem dor para ninguém.
Basta apenas os olhos fechar.

sábado, 2 de agosto de 2008

Reconciliação

Reconciliando a alma e o corpo
O espírito e a matéria
Deus e o Diabo
Reconciliando o mundo dividido
Transformando o caos
Tornando-o cosmo novamente
Sentando a vontade e o desejo
Fazendo-os amigos numa santa refeição
A primeira ceia de várias que virão
A mente-razão apreciando o sentimento
Com suas mais puras emoções
Unindo o mundo plural
Tornado uno
Não mais
Não menos singular
O mesmo mundo
O mesmo Deus
O mesmo corpo
A mesma alma
Na reconciliação da vida
Na visão de mundo
Entre rua e casa que são espaços
Díspares da mesma realidade
Reflexo invertido
Faces da moeda
Imagens do rosto de Lua
Não somente dois
Não apenas quatro
Todos simplesmente
Um