Acordei e era noite
era cedo da manhã, era noite
E todos os dias de noite eu dormia
E acordava cedo da manhã, ainda noite
Eu dormia azul, acordava cinza
Dormia azul, acordava cinza
Acordava cinza, dormia azul
Até que num dia, acordei azul
E fiquei azul para sempre
Até que eu morra
Aí virarei cinzas de verdade
sábado, 13 de junho de 2009
Mutação
Eu era um menino forte, que pulava muros, subia em árvores e esmurrava todo mundo. De repente, certo dia, acordei e tinha feito xixi na cama. Eu vestia uma camisola de tecido que minha mãe costurara para mim. Tirei a camisola e embaixo dela tinha uma outra roupa, uma calcinha. E dentro da calcinha.... aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh manhêeeeeeee... Neste dia descobri que eu era menina.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Abri mão
Abri mão dos meus sonhos e das minhas idealizações infantis. Fechei a porta do meu mundo encantado onde pensamentos e divagações se pretendiam (re)produção fiel da realidade.
Joguei fora as canções de ninar que embalaram meu cochilo no regaço do lar.
Disse adeus a papai e mamãe que eu mantive unidos na imaginação. Fiz as pazes com minha irmã, aquela que nasceu comigo e mora em mim, pois ela também sou eu.
Passei a me ver no espelho, tal como sou. Não mais menina, mulher. Assumi os riscos de viver uma vida adulta, com responsabilidades, medos e possíveis frustrações. E com isso o prazer inestimável das grandes realizações.
Abri mão por mim e para mim, mas sabendo que assim serei real e de carne e o osso para o outro. Assim serei eu.
28/10/2008
Joguei fora as canções de ninar que embalaram meu cochilo no regaço do lar.
Disse adeus a papai e mamãe que eu mantive unidos na imaginação. Fiz as pazes com minha irmã, aquela que nasceu comigo e mora em mim, pois ela também sou eu.
Passei a me ver no espelho, tal como sou. Não mais menina, mulher. Assumi os riscos de viver uma vida adulta, com responsabilidades, medos e possíveis frustrações. E com isso o prazer inestimável das grandes realizações.
Abri mão por mim e para mim, mas sabendo que assim serei real e de carne e o osso para o outro. Assim serei eu.
28/10/2008
terça-feira, 2 de junho de 2009
Homem e razão
Eu penso e você sente
Eu sou homem, você mulher
Te quero ao meu lado, símbolo do meu poder
Você me quer amar, eu simplesmente te ter
Não amo, só tenho vontade
Você, vontade de sentir
Sentir novamente meu toque, minha voz
E meu coração a pulsar em ti
Não sou quem eu gostaria de ser
Sou homem assim como você
Sou razão que não dá espaço para emoção
Irrigar meu corpo, meu coração só tem essa função
Não sei sentir
Finjo que amo, para ser igual a ti
Mas não consigo mais mentir
Então fujo do teu amor que me sufoca
E me ausento de mim
9/2/9
Eu sou homem, você mulher
Te quero ao meu lado, símbolo do meu poder
Você me quer amar, eu simplesmente te ter
Não amo, só tenho vontade
Você, vontade de sentir
Sentir novamente meu toque, minha voz
E meu coração a pulsar em ti
Não sou quem eu gostaria de ser
Sou homem assim como você
Sou razão que não dá espaço para emoção
Irrigar meu corpo, meu coração só tem essa função
Não sei sentir
Finjo que amo, para ser igual a ti
Mas não consigo mais mentir
Então fujo do teu amor que me sufoca
E me ausento de mim
9/2/9
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Saudades
Saudades de um menino em corpo de gigante
Com sorriso e alegria contagiante
Que para longe se foi
Sem data para retornar
Sinto saudade de seus lábios, de seu toque e olhar,
Que saudade é essa! Não queria confessar.
Mas confesso, sinto falta
Falta de alguém que não sei se irá voltar
Pouco tempo estivemos juntos
Mas o suficiente para sonhar
Não é um príncipe
É um raro gigante
E fez o meu corpo bailar
E de dançar, se extasiar
Com sorriso e alegria contagiante
Que para longe se foi
Sem data para retornar
Sinto saudade de seus lábios, de seu toque e olhar,
Que saudade é essa! Não queria confessar.
Mas confesso, sinto falta
Falta de alguém que não sei se irá voltar
Pouco tempo estivemos juntos
Mas o suficiente para sonhar
Não é um príncipe
É um raro gigante
E fez o meu corpo bailar
E de dançar, se extasiar
Eu - 22/11/08
O mundo não dá susto. O mundo do lado de fora é simples. Dentro, aqui dentro que é complicado. Aqui fora posso mover as coisas, algumas até posso entender. Mas aqui dentro é tudo misturado. Não tem como pegar algo e mudar de lugar, não facilmente. Dentro é confusão. Fora o Caos se tornou Cosmo. Dentro mutação, algo que não é mais e ao mesmo tempo ainda não é. Mas foi e será algo que não sei o que é. O mundo é simples e as pessoas são boas. Eu que não sou boa. Ou sou boa como todos são, sendo bons e maus. E tenho dificuldade de assumir isso. O que sou é difícil ser, pois sou isso mas não era, ou não sabia que era. Então agora tenho dificuldade para ser. Mas estou tentando e me esforçando ser quem sou.As pessoas não são perigosas. Não por si. Nada podem me fazer, a não ser que eu permita. Sou meu castelo forte e sei me proteger. Mas vejo perigo, às vezes, na fumaça que está no céu, como se fosse um incêndio. Na verdade era a chaminé duma casa onde estava sendo feito um calderão de sopa deliciosa.A cabeça prega peças. Os olhos e as emoções também. Pecado ler onde não há nada escrito. Reagir a uma ação não tomada. Vingar um sentimento não ferido. Matar sem ter motivo.Aprender é necessário. É chato quando fazemos uso de alguém, que também nos usa. Mas sequer sabemos até quando. As pessoas ensinam sem querer, às vezes. Mas chegará o dia em que vou ir embora porque já aprendi tudo que tinha para aprender com ela. Não gosto de partir. Na verdade gosto de partir, mas não gosto quando tenho vontade de ficar. Mas o meu tempo nem sempre é o tempo. Tenho amigos que estão distantes porque nosso tempo junto acabou, nosso elo, o ponto em comum. É um gostar diferente. Gostar na distância. Gostar da lembraça, lembraça de algo bom que ficou para trás.É pecado forçar a barra para estar junto quando o tempo acabou. Violentar a vida, a minha vida, quando algo mais está no horizonte me aguardando e tento segurar com toda força a brisa do passado. Forçando, me limitando quando o horizonte é tão extenso e tão lindo e tão cheio de expectativas e boas surpresas. Isso é assombroso e belo.As vezes acho isso. Isso que eu disse. Reluto muito a deixar para trás aquilo que precisa ser deixado. Em relação a tudo: pensamentos, ideais, pessoas, amigos, amores. Uma vez uma amiga de alojamento do Seminário se mudava para um outro Estado, e eu fiquei muito triste por isso. Ela me disse: Karlinha, a vida é um grande barco, e para que pessoas novas entrem, algumas antigas precisam descer.Esse fluxo é natural, achei ingrato na época, mas faz sentido e é bom. Entendo. É bom. Tento me convencer disso. Tento aceitar.A vida é tão rica e tão cheia de... vida. Pessoas, sonhos e realizações. E mais pessoas, amores, amantes, lábios e desejos num concatenado de confusões. "A vida é real e de viés..." diz Caetano Veloso. Gosto de uma pessoa, já gostei de outra e já me apaixonei diversas vezes. Desejo uma outra, sou intrigada por uma que gosta de mim e não sei o que fazer. Mas o que sei é que não posso simplesmente fugir dessa realidade, dessa confusão de coisas que estão aí. Não vivi ainda nenhum seriado de Nelson Rodrigues. Nunca li Jorge Amado, mas acredito que também não vivo qualquer de seus romances. Mas sei que muito do que há em todas as pessoas também há em mim. Desejos proibidos, vontades estranhas e esquisitas, sonhos reprimidos, sonhos desajeitados. Sou muito humana e me dar conta disso é como se eu acabasse de descobrir que existo. E que estou num mundo com bilhões de pessoas que são como eu, e não são menos que eu, não são melhores que eu. São eus diferentes de mim, mas da mesma essência, suscetíveis às mesmas vicissitudes que eu. Cotidiano, rotina, mesmice, cansaço, sonhos, pesadelos, chulé, arroto, caspa, lágrima, sorriso, orgasmo, cachaça... Sou humana, muito humana, tão humana e tão mulher. E vivo aqui nesse planeta e falo esse idioma e tenho os traços do rosto como o são e uma cabeça cheia de coisas. E isso faz com que eu me sinta a pessoa mais interessante do mundo. Faz-me sentir plena e realizada num planeta, numa Via Láctea num Universo grande, grande, muito grande.Adoro viver e ter 25 anos e descobrir que em 25 anos serei idosa. E ter expectativa de quem serei eu daqui a 25 anos. O que terei feito? Como terei vivido? O que terei conquistado? O que estarei conquistando e construindo? Qual será o meu legado para este mundo? O que deixarei para os outros eus que virão depois de mim? Isso me joga um senso de responsabilidade por mim e pelos demais. O que não diminui o prazer de estar aqui. Não diminui.Sou viva e estou aqui.Mudo por dentro. Mudo por fora. Não tenho limites. Não há limites no mundo para todo ser humano. O segredo é descobrir e se apropriar disso. E isso eu sei desde pequena. Tinha esquecido, mas relembrei. Posso tudo e o impossível não existe. A vida me diz isso desde sempre e há muito tempo. E com isso acredito timidamente que sou feliz.
A doméstica, o administrativo e a cigarra
Estou de férias e hoje é o primeiro dia. Mas no domingo já estava motivada. Lavei o banheiro, lavei louça e preparei comida. Hoje acordei, li um pouco de jornal, tomei café e já arrumei a cama, a penteadeira, os meus CDs. Já estava limpando a janela do quarto quando me bateu uma estranha sensação.
Eu ali removendo a poeira, dando brilho no vidro e pensando que se eu for me embrenhar por essa via nas férias, certamente me frustrarei. Passarei os trinta dias limpando - e não faltará o que limpar - quando eu ensaiar que finalizei tudo, o banheiro já estará sujo pela quarta vez, as férias terão acabado e a vida corrida continuará.
A tarefa doméstica é um ciclo que não tem fim. É necessário um ambiente limpo e confortável para se viver, mas se você se empreende somente nisso pode ter a sensação que nada fez ou que simplesmente não viveu. Esta já era a sensação que estava me movendo quando parei de limpar a janela e vim para o pc escrever.
Não é diferente o assistente administrativo das empresas. Recepcionista bilíngue na empresa que trabalho, dou assistência à supervisora administrativa. Posso dizer que nosso trabalho lá não difere muito da lida doméstica aqui. É um ciclo que não tem fim.
Quando terminamos de pagar as contas, já chegaram as novas. E novamente: ratiar, lançar no sistema, mandar para a matriz pagar. Ops, uma nota fiscal veio errada, entrar em contato com o fornecedor, pedir reemissão de NF etc. No ambiente, quando se consegue consertar o ar condicionado, os bebedouros estão sujos, e quando limpos, as moscas invadem o escritório. Quando se consegue aprovação depois de cotação com três fornecedores para dedetização das mocas, elas simplesmente desaparecem. Parece brincadeira? Não é. E pronto, problema no ar condicionado novamente. A lâmpada não acende, a parede está rachando e tem uma goteira na casa de máquinas. Tem que comprar material de escritório, os formulários estão acabando e o café que temos só dá para mais dois dias. Ahhhhhhhhh! Às vezes dá vontade de gritar. Mas aí é respirar fundo, evocar todos os mestres espirituais da história: Buda, Jesus, Gandhi, e repetir no mínimo duzentas vezes: autocontrole, autocontrole, autocontrole, autocontrole... e não grito.
Aqui em casa quando eu terminar de limpar a janela, lavar a nova louça que já se formou, e vir limpar o escritório, é provável que já seja hora do almoço. E se eu for me aventurar pela cozinha, se fará mais louça para lavar. E quando eu limpar a cozinha depois do almoço, o dia já terá acabado. Poderei olhar à minha volta e me perguntar: o que eu fiz o dia inteiro?
Às vezes no meu trabalho também me pergunto isso. Mas reparo e vejo que tudo está em dia, assimilo que o trabalho - o muito trabalho - foi realizado com sucesso. Os fornecedores não estão ligando cobrando, tem café, açúcar e formulário no estoque, a metade do pessoal está com frio, a outra com calor, as entregas foram feitas, e a ligth não veio cortar a energia - tudo em ordem. Ninguém enxerga isso.
A supervisora e a recepcionista somente são vistas quando "o ar condicionado não está funcionando", "perdi a carteirinha do plano...", "tenho uma correspondência para enviar...", "meu contracheque chegou?"...
Aqui em casa minha mãe disse que o banheiro ficou mais limpo que quando o diarista veio fazer faxina. Na empresa, o pessoal invisível do administrativo recebe $$$ para que ninguém note nossa presença ou nossa falta.
É por isso escrevo nas férias.
A escrita é um movimento de saída destes ciclos, daquilo que é ordinário para o extra-ordinário. Como diz um famoso antropólogo
"... o rotineiro é sempre equacionado ao trabalho ou a tudo aquilo que remete a obrigações e castigos... ao passo que o extra-ordinário... evoca tudo que é fora do comum [...] os dois fazem parte e constituem expressões ou reflexões de uma mesma totalidade, uma mesma coisa... são modos que a sociedade tem de exprimir-se, de atualizar-se concretamente, deixando ver a sua "alma" ou o seu coração."
(DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? p.68)
Quanto ao pagamento, quem escreve pode receber de seus leitores o melhor soldo, dando-lhes a possibilidade de uma leitura prazerosa, podem deles receber gratidão e reconhecimento. Sem falar que escrevendo se investe tempo no formoso ócio, exercita-se a liberdade e se utiliza a melhor das faculdades humanas, o pensar. Vejam o que diz o lindo poema sobre a conhecida história da Formiga e da Cigarra.
"Olhe lá que essa história
Da cigarra e da formiga
É um caso mal contato
Permita o amigo que diga
Pois quem diz que não trabalha
Quem passa a vida a cantar
Não vê que o canto é trabalho
Que ajuda o mundo a mudar
Dedilhando a viola
Dia e noite, noite e dia
E cantando sem parar
O artista faz poesia
Este é o ócio criador
E a todos traz alegria
E que enche, meu senhor
Até barriga vazia
Pois se a formiga suporta
Tanto peso carregar
É que ouve o canto amigo
Da cigarra a lhe alegrar
São trabalhos diferentes
O mundo não é igual
Como nos diz o ditado
Cada um seu cada qual
Pro formigueiro existir
Feliz, risonho e contente
É preciso que a cigarra
De cantar se arrebente"
(João das Neves)
O escritor é a cigarra que canta com os dedos.
Eu ali removendo a poeira, dando brilho no vidro e pensando que se eu for me embrenhar por essa via nas férias, certamente me frustrarei. Passarei os trinta dias limpando - e não faltará o que limpar - quando eu ensaiar que finalizei tudo, o banheiro já estará sujo pela quarta vez, as férias terão acabado e a vida corrida continuará.
A tarefa doméstica é um ciclo que não tem fim. É necessário um ambiente limpo e confortável para se viver, mas se você se empreende somente nisso pode ter a sensação que nada fez ou que simplesmente não viveu. Esta já era a sensação que estava me movendo quando parei de limpar a janela e vim para o pc escrever.
Não é diferente o assistente administrativo das empresas. Recepcionista bilíngue na empresa que trabalho, dou assistência à supervisora administrativa. Posso dizer que nosso trabalho lá não difere muito da lida doméstica aqui. É um ciclo que não tem fim.
Quando terminamos de pagar as contas, já chegaram as novas. E novamente: ratiar, lançar no sistema, mandar para a matriz pagar. Ops, uma nota fiscal veio errada, entrar em contato com o fornecedor, pedir reemissão de NF etc. No ambiente, quando se consegue consertar o ar condicionado, os bebedouros estão sujos, e quando limpos, as moscas invadem o escritório. Quando se consegue aprovação depois de cotação com três fornecedores para dedetização das mocas, elas simplesmente desaparecem. Parece brincadeira? Não é. E pronto, problema no ar condicionado novamente. A lâmpada não acende, a parede está rachando e tem uma goteira na casa de máquinas. Tem que comprar material de escritório, os formulários estão acabando e o café que temos só dá para mais dois dias. Ahhhhhhhhh! Às vezes dá vontade de gritar. Mas aí é respirar fundo, evocar todos os mestres espirituais da história: Buda, Jesus, Gandhi, e repetir no mínimo duzentas vezes: autocontrole, autocontrole, autocontrole, autocontrole... e não grito.
Aqui em casa quando eu terminar de limpar a janela, lavar a nova louça que já se formou, e vir limpar o escritório, é provável que já seja hora do almoço. E se eu for me aventurar pela cozinha, se fará mais louça para lavar. E quando eu limpar a cozinha depois do almoço, o dia já terá acabado. Poderei olhar à minha volta e me perguntar: o que eu fiz o dia inteiro?
Às vezes no meu trabalho também me pergunto isso. Mas reparo e vejo que tudo está em dia, assimilo que o trabalho - o muito trabalho - foi realizado com sucesso. Os fornecedores não estão ligando cobrando, tem café, açúcar e formulário no estoque, a metade do pessoal está com frio, a outra com calor, as entregas foram feitas, e a ligth não veio cortar a energia - tudo em ordem. Ninguém enxerga isso.
A supervisora e a recepcionista somente são vistas quando "o ar condicionado não está funcionando", "perdi a carteirinha do plano...", "tenho uma correspondência para enviar...", "meu contracheque chegou?"...
Aqui em casa minha mãe disse que o banheiro ficou mais limpo que quando o diarista veio fazer faxina. Na empresa, o pessoal invisível do administrativo recebe $$$ para que ninguém note nossa presença ou nossa falta.
É por isso escrevo nas férias.
A escrita é um movimento de saída destes ciclos, daquilo que é ordinário para o extra-ordinário. Como diz um famoso antropólogo
"... o rotineiro é sempre equacionado ao trabalho ou a tudo aquilo que remete a obrigações e castigos... ao passo que o extra-ordinário... evoca tudo que é fora do comum [...] os dois fazem parte e constituem expressões ou reflexões de uma mesma totalidade, uma mesma coisa... são modos que a sociedade tem de exprimir-se, de atualizar-se concretamente, deixando ver a sua "alma" ou o seu coração."
(DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? p.68)
Quanto ao pagamento, quem escreve pode receber de seus leitores o melhor soldo, dando-lhes a possibilidade de uma leitura prazerosa, podem deles receber gratidão e reconhecimento. Sem falar que escrevendo se investe tempo no formoso ócio, exercita-se a liberdade e se utiliza a melhor das faculdades humanas, o pensar. Vejam o que diz o lindo poema sobre a conhecida história da Formiga e da Cigarra.
"Olhe lá que essa história
Da cigarra e da formiga
É um caso mal contato
Permita o amigo que diga
Pois quem diz que não trabalha
Quem passa a vida a cantar
Não vê que o canto é trabalho
Que ajuda o mundo a mudar
Dedilhando a viola
Dia e noite, noite e dia
E cantando sem parar
O artista faz poesia
Este é o ócio criador
E a todos traz alegria
E que enche, meu senhor
Até barriga vazia
Pois se a formiga suporta
Tanto peso carregar
É que ouve o canto amigo
Da cigarra a lhe alegrar
São trabalhos diferentes
O mundo não é igual
Como nos diz o ditado
Cada um seu cada qual
Pro formigueiro existir
Feliz, risonho e contente
É preciso que a cigarra
De cantar se arrebente"
(João das Neves)
O escritor é a cigarra que canta com os dedos.
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